A matéria da paisagem

São formas azuis, cinzas, alaranjadas. Planas e retas, por vezes curvas. Abertas e desdobradas. Concretas ou modulares, pequenas ou grandes, essas formas são também desenhos articulados constituídos por somas de texturas, de materiais, de olhares.

Leticia Lampert olha para as cidades.
Fita, mira, admira.

Olha e vê o que nelas é de todas elas: janelas, sobreposições de planos, paredões de concreto, tons de cidade. Matiz de parede.

Olha e lê o que nelas é desenho, caminho, trajeto. Linha do horizonte onde nem sempre tem horizonte, universo amplo de cor num pequeno pedaço de céu. Céu que vira piscina, piscina poça d’água, aquarela na mancha do concreto. Vão na fresta.

Arranha-céu. Guarda-corpo. Pé direito.
Empena cega.

Batuque, toque, toco.

Ritmo.

Não pode pisar na linha, diz a criança, dona do pé que ainda cabe fácil na pedra irregular do calçamento.

Ao andar na cidade, a artista se depara com interdições, desvios, desconforto. Ainda assim, faz do incômodo, invenção. Vê possibilidades de criação, de encontro, desafios. Jogos de armar, amarelinha, elástico. Uma garrafa, cinco marias, dezenas de incertezas.

Sem palavras, uma poesia da forma, tudo percute em dobras de espaço.

E aqui mesmo, no V744, o chão se espelha em arquitetura, a parede se torna um edifício, as partes de um todo se afastam como um quebra-cabeças em expansão. E no meio da sala, e em cima da mesa e no canto da casa, está a cidade. Uma cidade invisível como só a imaginação poética pode construir.

Gabriela Motta

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Texto escrito para apresentação da exposição A matéria da paisagem, realizada no V744ateliê, em Porto Alegre, em agosto de 2025

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